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Por que você não deixa a cidade agora? – 15/12/2025 – No Corre

O escritor Guilherme Cavallari em uma tenda nômade na Mongólia - Reprodução/Transmongólia

Viver na megalópole tem lá seus confortos, mas os congestionamentos de quatro dígitos (com o barulho de três), os blecautes dignos de países em guerra, a verticalização inclemente, a transformação de parques em shoppings para novos-ricos, a sensação de insegurança permanente e a multiplicação de desvalidos pelas ruas botam a gente anestesiado como o diabo, como quase disse o poeta pensando em bem outra coisa.

Diante disso, por que você não larga tudo e vai viver na praia, na roça, abrir uma pousada, como já quis fazer um dia? Na pandemia isso até pareceu possível, e dava ainda para suprimir a parte proverbial, a da pousada.

Por que não só você mas tanta gente não larga tudo? Por que não fazemos algo minimamente próximo daquilo apontado pelos nossos desejos?

Pois bem, estes dois camaradas, ainda que mantendo certa pulsão de controle sobre o imponderável, saciaram a vontade de deixar a rotina insana das capitais.

Guilherme Cavallari, 63, trocou São Paulo pela Mantiqueira há 12 anos, mas isso não lhe bastou: regularmente passa meses a pedalar, fazendo-se acompanhar apenas de uma pequena barraca e de alguns equipamentos de sobrevivência –e de filmagem. Esteve nos Andes, na Mongólia, na Escócia e na Patagônia e tem planos para o Irã.

Suas viagens viraram livros e filmes, alguns abertos no YouTube, mas, mais do que dar vazão a uma veleidade artística, e agora profissional, elas são experiências profundas, como ele diz, de autoconhecimento.

Em sua incursão pela Mongólia, planejada um tanto imprecisamente em razão da precariedade dos mapas e do GPS, e em que temia não ter acesso à mais básica das necessidades humanas, água, teve de abandonar a introspecção que ele diz sempre dominar seus primeiros dias de viagem.

Abraçava-o a hospitalidade sem peias dos mongóis, que ainda vivem de maneira seminômade, em barracas coletivas nas quais inexiste a privacidade. A falta de um idioma comum não chegou a ser um problema.

Carlos Dias, 52, a cada ano inventa também uma expedição em que caminha e corre lentamente por milhares de quilômetros. Acaba de completar toda a extensão da Transamazônica, essa estrada-metáfora desastrada de um país a tentar “civilizar-se”, dominar a natureza, utopia distópica, visão de um futuro nascido velho.

Desde que desembarcou em Lábrea, confim amazônico nos limites do Acre, e três meses e 4.000 km depois, quando então chegou ao litoral da Paraíba, ele passou dias e noites exposto à beleza da natureza, aqui e ali ainda copiosa; e imerso no desolamento total e na violência da mineração ilegal –sua vida chegou a depender da habilidade em convencer o interlocutor de que não era “gambé”.

Gui e Carlão fazem suas viagens por necessidade de sobrevivência, no caso deste talvez mesmo de subsistência, mas há em suas experiências ensinamentos, que, à parte a vontade dos dois, homens que não se veem como fabulistas ou autores de livros moralistas, podem ser absorvidos por todos nós.

O principal desses ensinamentos, creio, é que é possível descarrilar, para usar uma imagem cara ao Guilherme, tirar a vida da linearidade em que ela supostamente deveria se assentar, seja porque assim foi decidido por nossos pais ou pela sociedade, com seus usos e costumes; seja pela ausência de qualquer tentativa honesta de autoanálise.

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Fonte: Folha de São Paulo

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