Carlo Ancelotti já disse que é um treinador sem filosofia, sem uma estratégia estabelecida e que age de acordo com a qualidade e característica dos jogadores de sua equipe e do adversário. Baseado nos seus conhecimentos técnicos e táticos, ele já tem uma maneira de jogar, com poucas variações, que utilizou nas partidas da seleção.
Por não ter grandes craques no meio-campo e por possuir muitos atacantes hábeis, talentosos e rápidos pelos lados e pelo centro, o técnico tem priorizado as transições rápidas da defesa para o ataque e as estocadas individuais, que têm funcionado bem. Já as outras fortes seleções preferem a associação de muitos meio-campistas para trocar passes, ter o domínio da bola e do jogo e esperar o momento certo de tentar o gol. O ideal é unir as duas estratégias em um mesmo jogo, de acordo com o momento.
A seleção brasileira deve marcar com nove jogadores (quatro defensores, dois volantes, dois pontas que atacam e defendem e mais um meia centralizado que volta para marcar). Para atacar, serão geralmente quatro jogadores (dois pontas, um meia ofensivo centralizado e um atacante pelo centro), além do avanço ocasional de um dos volantes. Receio que o ataque e a defesa fiquem compartimentados, separados, com um vazio no setor, como às vezes tem ocorrido.
Será que Ancelotti, contra grandes seleções, irá mudar a estratégia e escalar um trio no meio-campo (um volante centralizado e um meio-campista de cada lado, que atacam, constroem e defendem)? É pouco provável, pois faltam grandes talentos no setor. Próximo da Copa de 70, Zagallo trocou um ponta excepcional, rápido e driblador, Edu, por um terceiro jogador de meio-campo. Funcionou muito bem porque Rivellino era um grande craque. Os craques têm preferência.
Ancelotti parece ter definido que, melhor do que escalar laterais jovens de pouco talento, é improvisar zagueiro na lateral direita (Militão ou Danilo) e escalar o experiente Alex Sandro na esquerda. Sentiremos falta de laterais que apoiam e avançam, porém, assim fica melhor, ainda mais que a seleção possui excelentes pontas.
Paquetá, que era tido como certo, corre risco de não ir ao Mundial. Na sua melhor posição, a de meia- atacante centralizado, o time já conta com Matheus Cunha, Raphinha e até com a possibilidade de ter Neymar. Na função mais recuada, a de reserva de Bruno Guimarães, Ancelotti prefere um jogador mais forte na marcação.
Ancelotti disse novamente que Neymar só irá ao Mundial se estiver muito bem fisicamente, pois só assim vai se destacar. Isso é claro. Mais que isso, penso que Neymar não acompanhou a evolução do futebol, já que passou a atuar em um espaço pequeno de campo, esperando a bola no pé para tentar uma grande jogada individual. Contra grandes seleções, terá poucas chances.
Ancelotti não quer Vinicius Junior aberto pela esquerda, pois assim teria de voltar para marcar. O técnico, com razão, quer vê-lo livre, se movimentando por todo o ataque, como atua hoje no Real Madrid.
A história do futebol e das Copas do Mundo é uma sucessão e uma associação de situações atuais e antigas de técnicas, táticas e afetivas, com momentos previstos e inesperados. Muitos fatos importantes ainda poderão ocorrer até o Mundial. Nada está definido.
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Fonte: Folha de São Paulo